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19/06/2026
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19/06/2026Recordo as peladas disputadas nos campinhos do bairro do Butantã, nos terrenos baldios de terra batida, quase planos, a poeira predominava nos dias de secas e, nos dias chuvosos, “chafurdávamos” na lama. Disputávamos majestosas porfias, próprias de moleques das periferias paulistanas em meados dos anos de 1960. Por vezes, enfrentávamos outras turmas em acirradas disputas. Alguns calçavam tênis surrados, outros com os pés descalços que se fundiam com a cor da terra. A maioria dos meninos traziam marcas ou ferimentos nos pés.
Numa tarde, marcamos numa porfia contra a turma de baixo, o pessoal da Vila Tiradentes, do temível Tiguera, menino metido a valentão e com a fama de bom de briga. Poucos, tinham a coragem de enfrentá-lo, inclusive eu. Marcamos uma partida em nosso território, o campinho da Avenida José Joaquim Seabra, contra a turma dele, a de baixo. Em disputa três flâmulas e dez ampolas de tubaína.
Preparamos o terreno, transformamos caibros e ripas em traves, com a cal demarcamos as linhas do campo de jogo. Tudo preparado para o grande acontecimento e, a bola de capotão, novinha que só vendo.
Chegara o grande dia, tarde memorável, ensolarada e empoeirada. No time do Tiguera um cara bom de bola, fazia toda a diferença, o “Pelé’ dos campinhos das redondezas, talvez o melhor de todos aqueles com os quais convivi, o Bandola, garoto esguio, de estatura acima dos demais. Dominava a esfera com maestria e desenvoltura, impunha respeito. Um craque invejável, na visão daqueles petizes, que sonhavam um dia ser jogador de futebol.
Devido às dimensões do campinho, o nosso time, — sem camisas —, escalado com oito craques: Eu, Zé Nilton, Moacyr, Macalé, Galo Cego, Carlinhos, Nenê e Esquerdinha. Devo admitir que, Moacyr, Macalé e Nenê eram realmente bons de bola, já eu, só tinha lugar mesmo no gol. O tempo não era marcado no relógio, trocava de lado do campo quando um dos times marcasse primeiro seis gols e, terminaria quem marcasse doze gols. Quanto ao árbitro, este era por conta do juízo e da coragem de cada um marcar eventuais faltas.
A peleja se desenrola com muita vontade de ambos os lados. Bola vai, bola vem, golaço do Bandola. Bola vem, bola vai, conseguimos empatar e, na sequência, após uma grande jogada de Moacyr, viramos o jogo. Daí pra frente foram caneladas por todos os lados.
— Foi falta, não foi falta! — quem gritasse o palavrão mais alto ganhava a marcação. Numa jogada, para evitar que Tiguera entrasse com bola e tudo, cometo pênalti. O valentão revida com uma porrada no meu rosto. Não hesitei, saltei com os dois pés no peito dele, desferi porradas na cara do moleque, até que separassem o entrevero.
Aquela tarde no campinho de chão de terra batida foi para mim o maior espetáculo da terra, vencemos o jogo, ganhamos as flâmulas, nos “embriagamos” com as tubaínas e, acima de tudo, me libertei do medo, do medo do Tiguera.
Carrego no coração saudades de todos aqueles garotos de um tempo onde não haviam distinções de raças e nem da cor da pele, éramos simplesmente meninos, todos iguais. Sei que uns já partiram, alguns estão por aí, outros, não sei por onde andam. Todavia, homenageio aqui todos aqueles meninos “craques da bola” que se tornaram adultos e, aqueles adultos, que ainda permanecem meninos, driblando as dificuldades da vida.
Samuel De Leonardo (Tute)
samuel.leo@hotmail.com.br e Facebook @samueldeleonardo

